Iniciação Científica · Psicologia · UVV · 2026

Onde nasce
o sujeito?

Na concepção? No chá revelação? No parto? Nas relações?

Edital 011/2026 · PIBIC/PIVIC

Discente pesquisador | Juarez de Oliveira Júnior Docente orientadora | Prof.ª Jaqueline Oliveira Bagalho
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A urgência

O quanto antes
é preciso chegar
para salvar o sujeito
do Homem e da violação em Ser?

Antes do diagnóstico, o sujeito. Antes do sujeito, o contexto. Mas até onde vai esse antes?

Não se nasce mulher:
torna-se mulher.

Simone de Beauvoir — O Segundo Sexo

Se o gênero não é origem, o que é?

Uma construção?

Uma narrativa?

Um roteiro que já existia antes do sujeito chegar para cumpri-lo?

Nota conceitual

Homem aqui é uma posição simbólica que o sujeito ocupa, diante de um elemento corporal único, imprimindo contudo, um conjunto polarizado de significantes que atribuem características de hierarquia dentro de uma lógica do Dimorfismo.

Para Irigaray, a diferença sexual opera por polarização binária: não há um sem o outro. E nessa relação, um submete o outro. A existência de um elemento depende da existência do outro, uma vez que é subordinada à existência do primeiro.

Luce Irigaray, filósofa e psicanalista francesa — Ce sexe qui n'en est pas un (Este sexo que não é um), 1977.
Ensaio sobre a tese
"Sinto que amo mais as mulheres hoje, como bissexual em uma relação homoafetiva, do que quando era heterossexual."

Partimos aqui do princípio de que reconheço gênero, sexo e sexualidade como camadas distintas nas dimensões do sujeito, em si e em sociedade. Ainda assim, foi pensando a desconstrução de um elemento específico dentro da heteronormatividade, a heterossexualidade, que cheguei à provocação inicial desta pesquisa.

Cheguei a essa conclusão refletindo sobre a forma como o sujeito se constitui em relação com o outro. Após um primeiro contato com os conceitos de narcisismo, falta constituinte e alteridade, entendi que o Outro opera como espelho onde o sujeito se vê, "se ama", se descobre.

Ao escutar Ana Suy e Christian Dunker refletirem durante duas horas sobre o livro "Eu só existo no olhar do outro?", juntei as peças acima a uma série de reflexões sobre machismo, transfobia, misoginia e (auto)amor tóxico, e cheguei ao que quero investigar: quando precisaríamos chegar para desconstruir o homem que desconhece e nega partes de si e, com isso, as projeta em violência sintomática?

Ao aceitar em mim o desejo que negava, deixei de precisar recusar, no outro, aquilo que recusava em mim. Como se a violência contra o feminino fosse, antes de tudo, uma violência contra o feminino em mim. Daí a tese que sustenta este trabalho: o machismo talvez não seja, na origem, ódio ao feminino fora, mas ódio ao feminino dentro, projetado no fora porque dentro é insuportável. Numa sociedade que organiza o poder em torno do falo (entendido aqui não como pênis, mas como significante do poder, da potência criadora, do status, do atributo que marca o que é frente ao que não é), o homem que sente em si algo que ameace essa posição precisa recusar esse algo com violência.

Quão menos carente de objetificações fálicas narcísicas da heteronormatividade ele precisa para Ser, mais à vontade em sociedade com o todo do que se é (incluso o feminino, como representante da falta, da não-parte, como atributo opositor ao masculino ou simplesmente como o diferente, não hierarquizado). Logo, menos violento, menos carente de ser Homem, menos "macho".

Então, como alguém dotado de Google, uma coleção de horas em podcasts sobre psicanálise e os conteúdos de Teoria Psicanalítica, me dei conta de que essa intuição encontra eco em Freud (angústia de castração), Klein (posição esquizoparanoide e elaboração da ambivalência), Lacan (sexuação e função fálica), Butler (gênero como performance) e em autores brasileiros contemporâneos que articulam psicanálise e gênero, para além da dimensão do sujeito, compreendendo também a dimensão do social quanto ao sujeito.

É importante esclarecer, para que não caiamos no campo da superficialidade de quem não apreende a dimensão do consciente como resistência e do inconsciente como piloto operante, que não trato a desconstrução como algo da "vontade", da prática de saber que pode ser e, automaticamente, vir a ser. Trato como elaboração subjetiva. Como percurso possível que o sujeito tem para poder ser menos o que querem que ele seja (e com isso ele também o quer) e poder se perceber possível no mundo de outras formas, reinventando, inclusive, o que é o poder (o falo).

É por isso que a universidade aparece como recorte: um espaço onde posso observar se essa elaboração encontra condições ou encontra barreiras.

O projeto

Quando o sujeito se forma homem?

Articulações entre narrativas e a emergência da crítica ao machismo em ambiente universitário.

01 Palavras-chave
Observações & Alterações
02 Resumo Expandido

Que torna um sujeito homem? Não a biologia, não o masculino (que também existe no ser mulher), não o papel social fixo. A psicanálise e os estudos de gênero têm mostrado, em direções distintas, que a constituição do sujeito como homem envolve um processo simbólico complexo atravessado pela cultura, pela linguagem, por relações de poder, por raça, classe e sexualidade. Apesar disso, o diálogo entre psicanálise e estudos de gênero permanece pouco articulado na produção brasileira, especialmente quando o foco incide sobre homens como sujeitos da pesquisa e não apenas como objetos de denúncia.

Esta pesquisa pergunta: de que modo o sujeito se constitui como homem, qual sua relação com o machismo, e como o ambiente universitário atravessa esse processo, podendo emergir como espaço de reforço ou de crítica? O objetivo é analisar esse modo de constituição, investigando como o ambiente universitário e os contextos socioculturais atravessam o processo e participam da emergência de repertórios críticos ou reforçadores.

A pesquisa adota abordagem qualitativa por via psicanalítica, com caráter exploratório e interpretativo. Organiza-se em duas frentes complementares: revisão bibliográfica sistemática nos eixos da constituição do homem pela cultura, do androcentrismo como estrutura simbólica e da violência de gênero como expressão do machismo; e análise documental e narrativa do material produzido por práticas extensionistas desenvolvidas com homens jovens universitários.

Espera-se produzir três ordens de impacto: social, acadêmica e empírica, identificando nas narrativas marcas da masculinidade hegemônica, fissuras subjetivas e repertórios críticos ou reforçadores, atento aos modos como raça, classe e sexualidade singularizam cada trajetória.

Observações & Alterações
03 Problema de Pesquisa

De que modo o sujeito se constitui como homem, qual sua relação com o machismo, e como o ambiente universitário atravessa esse processo, podendo emergir como espaço de reforço ou de crítica?

Observações & Alterações
04 Objetivos e Metas

Objetivo geral: Analisar de que modo o sujeito se constitui como homem em relação ao machismo, investigando como o ambiente universitário e os contextos socioculturais atravessam esse processo e participam da emergência de repertórios críticos ou reforçadores.

Objetivos específicos:

1.Identificar as marcas da masculinidade hegemônica nos discursos culturais e na ordem simbólica, compreendendo como modelos históricos, culturais e psicanalíticos se atualizam na constituição do sujeito sobre ser homem.
2.Investigar as narrativas de reconhecimento e as fissuras subjetivas de homens jovens universitários, examinando os afetos e discursos que possibilitam ou impedem o descolamento da repetição do machismo.
3.Examinar o ambiente universitário como campo de força, identificando em que medida suas dinâmicas agem como motores de crítica ou de cristalização do machismo.
4.Analisar como marcadores de raça, classe e sexualidade singularizam o processo, alterando as margens de manobra e as possibilidades de ruptura de cada sujeito.

Metas:

Meta 1 (nov/2026): Fichamento concluído. Protocolo de análise definido.

Meta 2 (fev/2027): Referencial teórico consolidado. Material empírico organizado.

Meta 3 (mai/2027): Análise parcial concluída. Relatório parcial entregue.

Meta 4 (ago/2027): Análise final. Relatório final. Resumo submetido. Artigo em redação. Hotsite produzido.

Observações & Alterações
05 Material e Métodos / Metodologia

Para esta pesquisa, adotaremos abordagem qualitativa por via psicanalítica, com caráter exploratório e interpretativo.

Organiza-se em duas frentes complementares que se sustentam mutuamente: a construção de um referencial teórico que cruza definições capazes de compreender a temática e suas intersecções; e a análise de material empírico produzido por práticas extensionistas.

Na frente de revisão bibliográfica sistemática, com hipótese orientadora, parte-se de critérios definidos de seleção e resultados descritíveis em texto analítico. A revisão organiza-se em três eixos articulados: a constituição do homem pela cultura, sob a ótica da psicanálise e dos estudos de gênero; o androcentrismo como estrutura simbólica e cultural que atravessa essa constituição; e a violência de gênero como expressão do machismo nas trajetórias de homens.

A segunda frente consiste em análise documental e narrativa do material produzido por práticas extensionistas desenvolvidas com homens jovens universitários. A análise buscará identificar, nas narrativas, marcas da masculinidade hegemônica, momentos de reconhecimento e fissuras subjetivas, e repertórios críticos ou reforçadores do machismo, atento aos modos como raça, classe e sexualidade singularizam cada trajetória.

A articulação entre as duas frentes cria as estruturas da lente para olhar o universo em questão. O referencial teórico orienta a leitura do material empírico, e o material empírico tensiona e atualiza o referencial, configurando um movimento de leitura que busca produzir compreensão sobre como o ambiente universitário atravessa a constituição do sujeito como homem e a emergência da crítica ao machismo, possibilitando outros caminhos possíveis.

Observações & Alterações
06 Cronograma

1º Trimestre (set–nov 2026): Levantamento e organização da revisão bibliográfica sistemática. Leitura, fichamento e organização do material por eixo teórico. Definição do protocolo de análise documental das práticas extensionistas. Reuniões de orientação quinzenais.

2º Trimestre (dez 2026–fev 2027): Conclusão da revisão bibliográfica e elaboração do referencial teórico definitivo. Início do registro sistemático das atividades extensionistas. Seleção e organização do material empírico. Reuniões de orientação quinzenais.

3º Trimestre (mar–mai 2027): Análise do material empírico à luz do referencial teórico. Identificação de narrativas de reconhecimento, fissuras subjetivas e repertórios críticos ou reforçadores. Redação parcial dos resultados. Entrega do relatório parcial.

4º Trimestre (jun–ago 2027): Análise aprofundada e síntese dos resultados. Redação e revisão do relatório final. Submissão de resumo para evento científico. Entrega do relatório final.

Observações & Alterações
07 Resultados Esperados

Esta pesquisa espera produzir três ordens de impacto articuladas entre si.

A primeira é social: que os achados ofereçam subsídios concretos para intervenções psicológicas junto a homens jovens universitários (com possibilidade de ressonância em intervenções voltadas a outros recortes masculinos), que alimentem práticas extensionistas e contribuam para o debate contemporâneo sobre masculinidade, machismo e elaboração subjetiva. Espera-se que o material produzido possa circular para além do ambiente acadêmico, sustentando o diálogo com sujeitos, coletivos e espaços institucionais que tensionam o tema cotidianamente, ou criando oportunidade de diálogo onde ele ainda é escasso ou inexistente. Que se constitua como referência contemporânea capaz de propor outros caminhos possíveis para lidar com a temática e suas materializações na sociedade.

A segunda é acadêmica: adensar o diálogo entre psicanálise e estudos de gênero, campo ainda pouco articulado na produção brasileira, investigando como a constituição do sujeito como homem se tensiona na cultura, se expressa em narrativas e se transforma, ou não, em relação ao machismo.

A terceira é empírica: identificar, nas narrativas de homens jovens universitários, marcas da masculinidade hegemônica, momentos de reconhecimento, fissuras subjetivas e repertórios críticos ou reforçadores do machismo, atento aos modos como raça, classe e sexualidade singularizam cada trajetória. Espera-se que o olhar sobre o material empírico permita compreender não apenas o que se repete, mas também o que escapa, o que se abre, o que pode ser nomeado de outro modo.

Espera-se, enfim, que o trânsito entre essas três ordens contribua para o adensamento da relação entre a produção acadêmica que orienta a leitura do empírico e o empírico que, por sua vez, atualiza e convida a produção acadêmica.

Observações & Alterações
08 Divulgação Científica

Os resultados serão divulgados por meio de apresentação em eventos científicos da área de psicologia e estudos de gênero. Está prevista a submissão de artigo científico a periódico especializado em psicologia, psicanálise ou estudos de gênero. Considera-se ainda a produção de hotsite com conteúdo derivado da pesquisa, voltado à circulação do conhecimento em linguagem acessível a públicos não acadêmicos, ampliando o alcance social dos resultados e contribuindo para o debate sobre masculinidade, machismo e elaboração subjetiva.

Observações & Alterações
09 Referências

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.

BICUDO, Virgínia Leone. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Sociologia e Política, 2010.

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1905/1996. v. 7.

IRIGARAY, Luce. Este sexo que não é um. Tradução de Cristina Lopes. Porto: Escrita, 1977.

KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

KLEIN, Melanie. Os estágios iniciais do conflito edipiano. In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.

PRECIADO, Paul B. Testo junkie. São Paulo: n-1 edições, 2018.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

Observações & Alterações
Referências em vídeo

Conteúdos audiovisuais que alimentaram as reflexões deste projeto.

Vídeo 1
Vídeo 2
Vídeo 3
Vídeo 4
Vídeo 5
Mapa conceitual
Conceitos
inconsciente sujeito narrativa Outro falta gozo desejo castração
Interlocutores
Freud Klein Winnicott Bicudo Lacan Beauvoir Butler Preciado
Recortes & Campo
raça classe sexualidade machismo universidade ruptura constituição antes

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